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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Aos filhos

A filha do agricultor
Hoje tem aula com doutor
O filho do marceneiro
Vai ser formar em engenharia
E matar a família de alegria
O filho do caminhoneiro
Também vai se tornar engenheiro
A neta criada pela avó
Passou em primeiro lugar na UFSCAR
O filho da doméstica solteira
Passou em medicina
Bateu assas e foi pro México.
O filho da enfermeira se tornou professor
A ex cozinheira não desistia
Hoje e formada em pedagogia
Quanto filho de trabalhador
Se formando doutor
Quantas aulas deixaram de matar!
 Se mataram de estudar
Em cursinho popular
 E tiveram que provar
Que universidade é lugar
Da classe popular.                                                


Joey é escritor autodidata

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Cadê o rango dos menor?

Ocorria uma onda de assaltos à mão armada que assolava uma cidade interiorana há semanas. Empresários, lojistas e a população estavam em pânico, este anunciado em jornais, televisão, rádio e internet.
            - Eu e meu primo – cheio de B.Os pra resolver – nóis tava tirando um lazer no corguinho no meio da cana. Sabe refrescar e fumar unzinho. Chupando uma cana de leve e do nada aparece os cana.
            - Mão na cabeça os dois. Nem pensa em correr que é flagrante dos brabo!
            Acompanhando os cana estava uma suposta vítima, um senhorzinho caduco que pouco enxergava e ouvia menos ainda. E assim meteram o grampo em Leléo e seu primo arrasta B.O. Até uma arma apareceu para formalizar o flagrante, e com reconhecimento da vítima fora consumado que dos 16 para os 17 anos o muleke da quebrada teria um novo endereço distante da casa cheio de reciclados na porta.
            - Cê é loko jão! Logo me mandaram pra um CDP de menor em uma cidade vizinha, três dias esperando vaga pra ser transferido. Demorou pra caralho pra sair porque a viatura tava zuada, quando saiu foi à milhão, cara corria mais que piloto de fuga e sem contar que não freava em uma lombada. Pra fuder o resto, no meio do caminho furou dois pneus, pô logo dois, puta azar da porra. Dois pneus e duas horas no sol em frente à borracharia do posto de gasolina.
            Ao chegar à Fundação Casa de Osasco a 200 km de sua goma, já tinha passado o horário do jantar e as luzes já estavam apagadas. Dormiu com fome, mas perto do medo, solidão, desamparo, insegurança e uma infinidade de sentimentos que se aproximava nos próximos meses, a fome não era nada.
            - Lá era cabeça baixa. Sim Sinhô! E Pouco não Sinhô! Se olhava para cima era soco na cara, usar cueca azul coletiva a Corujinha, pegar pereba na bunda e o remédio era talco de pé jogado pelos carcereiros. Até pra bater uma tinha de pedir licença pros parsas de cela, para demorar no banheiro. Falar com a família só por telefone uma vez por semana e cinco minutos. Cê é loko quero isso mais não jão!
            No CREAS Leléo passava por psicóloga, assistente social e participava de oficinas culturais duas vezes por semana, como parte do acompanhamento do processo de liberdade assistida.
            - Agora voltei a estudar. Nuss cê fala que saiu da FEBEM, chove de novinha em cima.
            Leléo das novinha colava nas oficinas com uma barra forte que o pai usava para recolher reciclados, a chamava de hornet. E nas longas tardes quentes de conversas intermináveis quando o café tardava, ele logo gritava.
            - Oh cadê o rango dos menor?
            Assim Leléo das novinha engravidara a primeira que encontrara ao sair da fundação casa. Outro dia nos encontramos por acaso em um destes botecos de copo sujo e cerveja gelada.

            - E ae Jhow locão! Como tá a caminhada? Eu paguei o que devia, nasceu meu neguinho e tô trampando de pintor. Juntando uma grana para comprar um fuscão. Vou nessa amanha tenho de acordar cedo.                                                                                                          
                                                                                                                                                                                                                                                                                             Joey é escritor autodidata.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Socorro!


            Por favor, me ajudem a entender. É uma súplica da dúvida, pois ainda insisto em indagar. Durante a semana é dieta “gourmet fit” e aos finais de semana gasta o valor do salário da empregada na pizzaria. Cultua o corpo e atrofia a mente. Vai de carro a academia, pedalar na bicicleta ergométrica. Na volta insulta o tiozinho de barra forte que esta voltando do trabalho cansado da vida em seu único meio de transporte.
            Paga um salário de miséria para a Dona Maria lavar, passar, cozinhar, faxinar, e cuidar dos filhos. O mesmo que investe para praticar “Cross training” para perder calorias e moldar o corpo e se encaixar nos padrões impostos pela ditadura da beleza.
            A última é reclamar das mudanças nas leis trabalhistas de empregadas domésticas. Acha o cúmulo do absurdo ter de pagar fundo de garantia e registro em carteira de trabalho. Porém frauda o imposto de renda apresentando atestado médico falso.
            O filho menor da Dona Maria caiu na biqueira e agora esta na Fundação Casa, em uma cidade muito distante. Enquanto a liberdade não cantar ele não vai receber visita da mãe. Pois se faltar ao trabalho é demissão na certa. Quando a liberdade cantar para o Junior ele vai sair sem saber ler e escrever, mas pós-graduado no crime. Pois esta instituição não ressocializa e sim criminaliza.
            Sorte da madame, patroa da Dona Maria. Que o Junior só não almeja tomar de assalto o casarão. Por que é dali que sai o sustento do barraco. Pois se encanar em tacar o terror e fazer a fita. Não há guarita com segurança, alambrado, cerca elétrica e circuito interno que segure o veneno que borbulha nas veias de cada menino que corre nos becos e vielas deste país.



Joey é escritor autodidata.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O silêncio ainda que tarda.

              
            Em um lapso o silêncio é quebrado com a cantoria da igreja evangélica ou com a gritaria do vai curintiá! O mesmo ópio com doses cavalares diferentes, usando muletas semelhantes.
            Como é triste presenciar o silêncio dolorido da criança com sete anos de idade que contraiu HIV sofrendo abuso do padrasto. O silêncio virtual é um luto contra a ignorância alheia que tomou conta das redes sociais. O silêncio neste ambiente gera insatisfação, pois não postar, curtir e compartilhar é considerado anomalia virtual, quase um pecado tecnológico.
            Nem diálogos com os que se dizem entendidos é possível. Pois estes não são capazes de conterem seu silêncio e vociferam superioridade com retóricas contraditórias. A forma de exteriorizar o meu silêncio é a escrita, que por sinal é lida por poucos. Pois esta geração esta habituada a cento e quarenta caracteres.
            Não se ensina aos gritos, mas aprende-se muito com o silêncio. Aprendi as duras penas que o silêncio é sinônimo de indiferença, e esta ultimamente anda fazendo toda diferença. Meu silêncio não me faz cúmplice, assim como também não quer dizer que eu não esteja conspirando contra a própria vida. Enfim, já dizia Confúcio. “O silêncio é um amigo que nunca trai”.
           O silêncio é um direito que ultimamente deveria se tornar um dever. Quebrar o silêncio deveria ser crime inafiançável. Condenado ao silêncio eterno. Sartre afirmava que “O inferno são os outros” e são eles que insistem a todo custo em violar o silêncio alheio. Afinal, para que gritar para um mundo surdo? Gostaria de pedir apenas um século de silêncio !Im memorian do próprio.


Joey é escritor autodidata.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Ninguém em terra de ninguém!

            O dito popular afirma que pobre nunca tem nada e quando chove perde tudo. Seria cômico se não fosse trágico. Para quem nunca teve nada o pouco passa a ser tudo, literalmente tudo. Tudo parcelado em carnês, tudo pago honestamente, tudo isso pelo dobro do valor a vista. Tudo que era para o pouco conforto, agora esta perdido.
            - Tudo que o pobre tem são os dentes e o nome.
            Então entra em cena o ninguém. Ninguém viu o incêndio criminoso para higienizar a favela ao lado do condomínio de luxo. Ninguém percebeu os barracos arderem em chamas e transformar o sonho da moradia em cinzas. Assim como ninguém vai ressarcir os danos causados pelo incêndio ou pela enchente.
             Quem nunca teve nada, perdeu o pouco que conquistou com muita luta. Agora não tem nem ao menos documentos e sem RG, CPF, carteira de trabalho, certidão de nascimento, PIS/PASEP e titulo de eleitor, não é cidadão e se torna ninguém.
            Aqui todos estão acostumados a perder. Perder amigos, perder tempo, perder o sono, perder dinheiro, perder a saúde, perder a coragem. Porém ninguém perde aquilo que nunca teve. Perde-se tudo. Menos a humildade e a dignidade.
            Portanto viver em favelas e áreas de risco é literalmente estar em uma linha tênue de correr o risco de não ser ninguém e consequentemente, viver em uma terra de ninguém. E quantos “ninguéns” são enterrados como indigentes diariamente.
            O mundo não anda tão diferente. Onde ninguém tem direito de sonhar e quiçá ser feliz. Ninguém ama ninguém, ninguém se importa com ninguém. Assim votamos em ninguém, pois ninguém vai mudar nada mesmo. Porém ainda insisto em escrever, mesmo sabendo correr o risco de ninguém ler.
Joey é escritor autodidata.

            

sábado, 12 de dezembro de 2015

Cyber Quebrada


            Não faz muito tempo que as “Lan House” e “Cyber café” invadiram as periferias, substituindo os fliperamas. Um amontoado de bicicletas em frente ao estabelecimento que mais parecia um pátio de escola, pelos gritos de euforia em meio a jogos virtuais, Orkut, msn e sala de bate papo.
            - Põe mais dois real ai tio!
            - Sem gritaria. Aqui é lugar de respeito!
            - Tio quer comparar isso aqui com igreja é ?
            Porém com o “boom” tecnológico da telefonia móvel atrelado a internet móvel, planos e facilidades para adquirir lap tops, tablets e celulares. A quebrada foi literalmente inundada por estas tecnologias e paulatinamente a Cyber fora esvaziada e quebrada.
            A Cyber fora quebrada e a função virtualizada. E por lembrar em celular, estes fazem parte da rotina da maioria das escolas. E rola de tudo: selfie, nudes, vídeos em banheiro, tretas virtuais, ameaça de morte, redes sociais, bluetooth, compartilhamento de vídeos, músicas e uma infinidade de aplicativos, menos algo relacionado a aprendizagem.
            - Ae Jão qual o seu maior sonho?
            - Ah fessor, é ter um Moto G de ultima geração e assinatura do Netflix. Ae sim eu seria feliz.
            Triste geração que até os sonhos foram virtualizados. As relações sociais também virtualizaram e a escola se mantém retrógrada e obsoleta em uma concorrência desleal com o mundo tecnológico que vive em constantes transformações.
            Putz, esta acabando a bateria do smarthfone e vou postar este texto só amanha. Porém vou aproveitar um Wi Fi alheio. Ah este mundo pós moderno.

Joey é escritor autodidata

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Um dia qualquer não importa qual seja a escola!


            Como canta Racionais “periferia é periferia em qualquer lugar” e escola de periferia também é escola de periferia em qualquer lugar. Assim me aproximo mais um dia da escola que trampo. Ou como diria os próprios alunos. Você trabalha ou só dá aula?
- Salve Joey! E essa bike ai? Cabulosa heim!
- Esta salvo! Ou melhor, é tá salvado que fala né!
             Saída dos alunos e professores do período da manhã e a entrada dos da tarde é aquela função. Bicicleta que sai bicicleta que entra. Entre gritarias e assovios que agitam a rotina do dia a dia. Porém desde que leciono sempre me indago por que alguns alunos - e estes não são poucos- sempre chegam bem mais cedo do que os demais que na sua esmagadora maioria vem na sola.
- Salve Joey! E essa peita ai? Das loka heim!
- Tá salvado!
            Chinelo de dedo branco remendado com clips que ganhou da inspetora, bermuda de tactel estampado do irmão e camiseta branca encardida. É assim que a maioria deles vão chegando, chegando e não para mais. Indo em direção ao refeitório tomar suco e comer bolacha.
- Oh tia! Rola pegar um pouco mais pra comer depois?
- Pode sim menino.
- Agradece!
            O sinal é o limite entre deixar de comer e ir para a sala de aula. Mochila fodida, ganhada da patroa da mãe, toda customizada com frases escritas de corretivo e coloridas de canetinhas. Logo a professora pergunta.
- Onde esta o seu material?
- Material? Para que material, se eu venho na escola para comer!
            Sem palavras a professora pede silêncio e inicia sua chamada. Em seguida anota a pauta no quadro. Calejada pelos anos que leciona não seria agora que iria se sensibilizar por ouvir que um aluno vai à escola pela merenda. Hora do intervalo é sagrada, pois é a hora de matar a fome que para muitos a única alimentação do dia. Portanto é aquela correria para colar na fila da merenda e conferir o que tem para comer repetidas vezes, e ainda sobrar um tempo pra correr de um lado para o outro.
- Salve Joey! Vai bater um rango ai com nóis.  
- Tá salvado! Tô colando.
- Tia coloca mais um pouco ai.
- Você pode repetir menino.
- Pô entrar na fila outra vez é osso, faz essa vai.
             O governador inventou as “Escolas Gourmet”, escolas do tempo integral, lá segundo eles tudo é melhor. Têm duas merendas, professores mais bem pagos, educação de qualidade. E nas periferias as “Escolas Diet Fit”, onde fecham salas, e superlotam outras, onde professores não recebem o mesmo e os cortes continuam para ajustar o orçamento. Em suma, a escola passa por uma dieta rigorosa de recursos e quem nela trabalha, sai de lá com o mesmo sentimento de sair de uma academia, porém com a cabeça a milhão.
- Salve Joey! Tó uma bala ai parsa.
- Tá salvado! Opa agradece.
- O que você aprendeu hoje na escola?
- Ah que caqui é um tomate doce e que almeirão é uma alface amarga.
            Estes sentem cotidianamente o amargo da vida tomar conta de sua doce infância.
- E a tabuada?
- Que tabuada o que. Hoje comi cinco vezes.
- Estava bom o rango?
- Ah não estava, mas comi do mesmo jeito.  Ce é loko, dormir com fome é osso.
            Ou seja, rola uma sinceridade intrínseca na molecada. Jogam a real do porque estão ali. Alguns nunca faltam, porque se ficam em casa tem de fazer serviços domésticos e não tem o que comer. O brincar na escola é o brinde depois de se alimentar. Logo ele tem de ouvir da professora.
- Menino, educação vem de berço!
- Sora. O que é berço?
- Lugar onde criança dorme.
- Mas eu durmo com meus dois irmãos e mais quatro primos em um colchão no chão, porque a casa só tem cozinha, banheiro e quarto.
            Como explicar a diferença entre educação familiar e educação bancária oferecida na rede pública de ensino para o menino?

- Salve Joey! Deixa eu dar um role nessa Bike ai.
- Tá salvado! Qualquer dia deste você anda.

            É assim que muitos deles voltam para casa, de barriga cheia e cabeça vazia. Dorme para esquecer o sofrimento, mas a fome o acorda para um pesadelo chamado vida.
Joey é escritor Autodidata.